Dia de Tirar a Focinheira

Não sei por onde começar a explicar a emoção que sinto ao ver essa foto.
A Jazz foi minha aluna desde o ano passado. Foram mais de dez aulas (literalmente) tentando avançar em mim e me morder. Uma vez ela conseguiu. Naquele momento em que tudo parece estar indo bem, sob controle, dentro do planejado…. #sqn
Foi a única aula que topei tirar a focinheira dela. Muito cedo. A mordida doeu. Me assustei e tive que controlar meu corpo e minhas emoções para lidar com aquela situaçao. O receio era que as mordidas não parassem naquela única. Sorte a minha que ela só queria me dar um aviso.
Outras aulas vieram depois disso. Como aconteceu desde a primeira aula, voltamos ao uso da focinheira. E eu decidi mudar a minha estratégia. Não era hora de treino-la. Era hora de criarmos um vínculo, de nos tornarmos amigas. E assim eu fiz.
Jogamos bolinha e jogamos gravetos, a brincadeira favorita dela. A focinheira quebrada foi perfeita para isso, qualquer erro meu e seria no máximo um beliscão com os dentes da frente, não uma mordida de fato. E seguimos aumentando a confiança uma na outra.
Na aula passada, sem registros fotográficos, ela esteve incrível. Ainda de focinheira, brincamos e treinamos. Mas na aula de ontem, essa da foto…. Eu só consigo encher os olhos de lágrimas cada vez que vejo essa foto.
Sim, eu choro. Porque não sou apenas uma treinadora. Eu mudo para melhor a vida de cães e de suas famílias. E isso me enche de emoção. Me mostra que estou no caminho certo. Um caminho que foi longo, nem sempre gratificante, de muuuuito estudo -e pouquíssimas mordidas, três em quase quinze anos.
Hoje a Jazz brinca com alguns cães, consegue estar cercada das (poucas) pessoas que ela gosta e confia, sem querer atacar ninguém, e eu sou uma delas. Ontem ela veio até mim e pediu carinho. Foi a primeira vez, em meses, que encostei nessa cachorra - como eu sempre falei para a mãe dela que conseguiria. Ontem ela treinou como o avião que eu sempre soube que ela seria, com a verdadeira potência de uma das raças que eu mais amo.
Ontem eu tirei a focinheira dela. E nós brincamos. E ela não me mordeu.
Ela aprendeu e eu aprendo muito com ela. Aprendi seus limites (assim como ensinei limites), nos ajustamos a ela e ela, aos poucos, está se ajustando ao mundo dos humanos. Muito louco esse mundo, em que exigimos muito dos cães e pouco de nós mesmos, já diria Bob Bailey.
Não consegui esses resultados sozinha. Tem uma equipe incrível junto comigo. E tem a confiança da mãe dela no meu trabalho e nas minhas decisões.
Obrigada por aquela mordida Jazz. Obrigada por me fazer aprender, a cada dia, a te escutar, estudar, repensar. Obrigada por tornar uma profissional e uma pessoa ainda melhor.
(13 de Maio de 2022)



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